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14
Ago14

A arte de ter tempo

por Inês Rocha

 

 

Com este, são já catorze dias de pausa na rotina. Sem horários, sem compromissos de maior, a aproveitar o tempo.

 

Nestes catorze dias, andei longe destas lides das palavras. Viajei com os amigos até ao fim do mundo, onde as paisagens ainda são naturais e a carne ainda sabe a carne, onde a música e a dança saem dos corpos tão naturalmente como a respiração. Percorri o país inteiro com a família e a amiga que também já é família. Cá atrás, um cão velhinho e surpreendentemente paciente, a sua respiração nos nossos pescoços durante largas horas.

 

Acordei a ver o mar, tomei pequenos-almoços na varanda, sentada à mesa e a conversar, sem pressões de ter um metro para apanhar e um horário para cumprir. Juntei-me ao povo instalado num pequeno retângulo de areia em frente ao mar. Levei banhos de areia sempre que os miúdos decidiram passar a correr pela toalha onde estava estendida. Mergulhei no mar desta vez gelado do Algarve, senti o sol a evaporar a água salgada da pele em menos de um minuto e a queimá-la sem hesitações.

 

Fiz dos finos e dos tremoços de fim da tarde uma religião. Da companhia e das conversas um prazer. Comecei a ver boas séries, a ler um daqueles livros que nos absorvem até cravar os cotovelos na areia e fazer ferida.

 

Agora que começo a contar os dias para voltar à rotina e ao trabalho, para deixar este pequeno paraíso sem obrigações a cumprir, lembro-me de uma conversa que tive um dia com a minha avó, algures na minha adolescência ocupada.

 

- Nem imaginas a quantidade de coisas que tenho para fazer. Às vezes gostava que os dias tivessem 48 horas.

 

A minha avó sorriu, com aquele ar de quem vai dizer mais uma coisa sábia.

 

- Sabes, eu acho que se os dias tivessem 48 horas nós arranjávamos coisas para os preencher e continuávamos sem tempo.

 

Nas férias, comprovo sempre esta afirmação da minha avó. O tempo é contínuo, uma sucessão de horas infinitas que não param nunca. Saber aproveitá-lo é uma arte – se houvesse um curso a ensiná-la, já estava na fila para me inscrever. Teimamos em condensar em meia dúzia de dias no ano os pequenos prazeres que nos dão paz de espírito. Mas temos 24 horas em cada dia para usar a nosso gosto. Normalmente, não os sabemos aproveitar.

 

Não há nada melhor do que estes dias em que nada mais importa para nos treinarmos nesta arte de aproveitar o tempo.

 

Por falar nisso, vou desligar esta tralha e mergulhar de novo no meu livro, talvez no sofá que está na varanda e tem vista para o mar e para a lua, ou noutro lado qualquer. Onde bem me apetecer.

 

 

PS: Na fotografia, a praia da Cova Redonda, considerada pela European Best Destinations uma das 15 praias mais bonitas da Europa. Isto era eu a testar as capacidades fotográficas do meu novo brinquedo. Mas asseguro que ao vivo é bem mais linda.

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