Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


 

“Estes jovens de hoje em dia estão todos perdidos! Quando eu era jovem ia para a rua jogar com uma bola de trapos, era assim que fazia amigos!”

 

Podia muito bem abordar a moda dos “meets” com afirmações como estas, qual velho do Restelo, “meneando três vezes a cabeça, descontente, a voz pesada um pouco alevantando”. Conseguia facilmente encher uma página A4 com generalidades dessas, “se eu fizesse isso quando tinha 16 anos o meu pai dava-me duas lambadas que me virava, e não virei um traumatizado. Estes jovens de hoje em dia são umas florzinhas de cheiro”. Mas essa era a forma fácil de abordar a questão, pôr-me no meu pedestal a olhar para os energúmenos desta atual geração, que estão perdidos, e sem futuro, mais valia metê-los a todos numa máquina do tempo para aprenderem o que é a vida.

 

Se eu fizer o exercício de descer o tal pedestal indestrutível em que todos temos a mania de nos colocar, até consigo perceber a moda dos “meets”. Estamos nas férias do Verão. Três meses sem nada para fazer é muita coisa (já agora, se alguém me quiser ceder uns quinze dias do seu vasto tempo livre, eu aceito). Eu lembro-me que costumava ocupar esses dias a combinar “meets” com os meus amigos da escola, da catequese, do coro (sim, sou uma menina do coro que andou na catequese, não me chateiem). “Meets” na praia, na piscina, no cinema, no café. A diferença é que na altura o computador existia no máximo para estar no “Messenger” à conversa com essas mesmas pessoas (escondidas em nomes como “mor4nguit4h fof1t4h” e “Crazy Net Boy”), e era bem mais interessante quando nos juntávamos ao vivo e criávamos memórias todos juntos.

 

Hoje em dia, os adolescentes têm muitos mais fatores de distração. É o Facebook e as trinta mil fotografias ao espelho dos seus 3 mil amigos. É o Youtube, todo o lixo e todas as coisas interessantes que lá se podem descobrir. É o Instagram, o Tumblr, o Twitter, os sites piratas com todos os filmes e séries algumas vez feitos. É o Spotify, o Pinterest, o Snapchat, o WhatsApp.

 

De repente, os miúdos passaram a poder estar em contacto com o mundo estando o dia todo de pijama em frente ao computador (que, by the way, é o que eu estou a fazer neste preciso momento). E conseguem realmente divertir-se assim, sem ficar entediados duas horas depois. Têm uma vida paralela nas redes sociais. São ambientes controlados onde podem mostrar-se exatamente da maneira que querem ser vistos. Para pessoas inseguras ou tímidas, é a forma mais fácil de fazer amigos. “Amigar” uma pessoa desconhecida e abrir uma janela de um chat é bem mais fácil do que nos aproximarmos daquele rapaz jeitoso que está a jogar futebol na praia.

 

Mas a certa altura, todos somos humanos, e percebemos que precisamos de algo mais do que amizades meramente virtuais. Precisamos do contacto visual, do toque, de outras coisas mais. E neste contexto parece-me que os #meets fazem todo o sentido. São encontros de toda a malta que passa o dia de pijama em frente ao computador a “botar like” em todas as fotografias que lhes aparecem à frente. Onde podem realmente ver ao vivo aquele rapaz com quem conversam quase diariamente, olhando-o finalmente nos olhos. Onde podem realmente rir uns com os outros, risos reais, sem terem que escrever “lol” a cada dois segundos. Estes “meets” juntam pessoas que já se conhecem, de uma forma às vezes bastante profunda, mas que nunca passaram pela fase da timidez inicial, das primeiras palavras trocadas, das primeiras reações.

 

O problema, no meio disto tudo, é que as redes sociais não juntam dez pessoas que acabam por formar uma amizade sólida. As redes sociais são um autêntico mundo, novas realidades que juntam milhares de pessoas. O resultado é este que anda a abrir telejornais. Centenas de jovens marcam um encontro, dez dos quais fazem parte de “gangs” e gostam de espetar chaves de fendas e garrafas nas costas das pessoas. Resultado: os “meets” dos jovens de pijama com necessidade de fazer amigos são transformados em práticas criminais, põem a polícia em alerta máximo, interrompem concertos onde as pitas histéricas se querem divertir (chamo-lhes pitas histéricas porque tive que levar com elas – as piores, as da primeira fila -durante mais de uma hora a gritar-me aos ouvidos). E fazem jornalistas terem que sair do trabalho às seis da manhã. Esta é realmente a consequência mais grave de tudo isto.

 

Fenómenos destes dão que pensar. A dimensão das redes sociais é inquestionável. Basta pensar nos banhos públicos, que continuam a percorrer o planeta a uma velocidade incrível. Somos todos solidários para fazer um vídeo a despejar um balde de água gelada pela cabeça abaixo, mas provavelmente passamos todos os dias por pessoas que precisam da nossa ajuda e viramos-lhes a cara, totalmente indiferentes ao seu sofrimento. Somos realmente solidários? Ou precisamos de mostrar isso à rede, esse ambiente controlado onde podemos ser quem quisermos?

 

O problema está nos “meets”, ou está na nossa forma de estar perante as redes sociais? Está nos adolescentes ou nos exemplos que veem nos adultos à sua volta? Porque é que os pais, em vez de dar um smartphone topo de gama a crianças que ainda não sabem conviver na vida real, não lhes dão a oportunidade de estar com pessoas reais, utilizando os seus tempos livres para praticar um desporto, aprender a dançar, a falar inglês ou a tocar um instrumento?

 

Agora que as redes sociais estão cá, e aparentemente vieram para ficar, talvez seja melhor descermos dos nossos pedestais, e começarmos a educar as nossas crianças. E a melhor forma de educar não é proibir os adolescentes de ir ao Vasco da Gama ou ao concerto do Anselmo Ralph. Isso não cria adultos, cria revoltados. Educar é dar o exemplo, alertar. E sobretudo dar alternativas.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D



Passaram por cá:

hits counter
hits counter