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Já que tenho mais um blogue, aproveito para escrever algo que já me atormenta há uns tempos, e que preciso de partilhar com o mundo.

 

Uma vez li este texto e identifiquei-me tanto com o princípio que decidi que um dia ia escrever um “Filmar é trabalho”.

 

Fui adiando, com medo de ferir suscetibilidades. Mas agora pensei “que se lixe”. Vou escrever. O mundo precisa de saber isto. Por isso, antes de mais, deixo umas notas prévias, a ver se não recebo já mil mensagens:

 

  1. Este texto não é um recado para rigorosamente ninguém. O que tenho a dizer digo-o diretamente às pessoas em causa.

  2. Se já fiz várias “borlas”, fi-las por livre e espontânea vontade, por diversas razões, a saber:
    • Vontade de colaborar num projeto com que me identifique e que sei, de antemão, que não pode pagar;
    • Amizade com as pessoas em questão, vontade de lhes oferecer algo;
    • Pura ingenuidade minha (não se volta a repetir).

 

Graças a Deus, nunca me apontaram uma faca à cara nem me ordenaram que fizesse um vídeo. Foi sempre fruto de uma conversa e, repito, não estou a mandar recados. Notas prévias feitas, vamos à razão do “manifesto”.

 

 

Já perdi a conta ao número de vezes que me vieram pedir, de mansinho, um “videozinho simples” sobre alguma coisa. Um casamento, um evento, um projeto para promover.

 

A conversa é repetidamente a mesma: “não quero dar muito trabalho, é uma coisa simples, só um resumo da coisa, os momentos mais importantes”. Nestas situações, "simples" é sinónimo de "grátis". Como se o adjectivo anulasse as horas que esse trabalho "simples" implica.

 

Não são raras as vezes que me cruzo com noivos escandalizados com os preços praticados por fotógrafos/videógrafos por um “simples dia” de casamento.

 

Uma vez li num daqueles fóruns de casamento uma mensagem que me mexeu com os nervos:

 

“Temos pesquisado mas os preços que vemos são absurdos: por um dia de trabalho pedem 1000 euros, 1500, 2000... até já 2500 euros me pediram. Quanto poderá custar um fotógrafo standard, que capture alguns bons momentos e consiga fazer também vídeo?”

 

Eu até admito que este raciocínio seja feita por pura ingenuidade, portanto vou-me dar ao trabalho de explicar: pedir a um profissional que “tire umas fotografias” num casamento ou que “faça um vídeo simples” é mais ou menos o mesmo que pedir a um médico que “faça uma consulta simples”, a um professor que “dê uma aula simples” ou a um pintor que “pinte rapidamente uma casa”. É desvalorizar um trabalho que não dura um dia, mas requer muitas, muitas horas de trabalho. Depois, “um fotógrafo que consiga fazer também vídeo” é semelhante a um construtor que pinta a parede enquanto põe a madeira no chão e ainda dá uma perninha a tratar da parte elétrica, tudo ao mesmo tempo. É humanamente impossível. A não ser que se queira um trabalho fraco. Aí, tudo é possível.

 

Dou o exemplo de um casamento porque é um evento em que tipicamente estes serviços são pedidos, cujos preços são altos (porque têm de ser). E falo mais particularmente do vídeo, porque é onde tenho mais experiência.

 

O videógrafo (vulgo “gajo que filma”) não se limita a filmar umas coisas, chegar a casa e passar para um DVD. Se é isso que os noivos querem, há sempre um tio com uma câmara digital que filma em HD e que faz isso “na boa”. Mas aí, nunca terão as músicas todas lindas que o coro cantou, misturadas com a entrada dos noivos, com o momento do “nó”, das alianças, das assinaturas, da saída dos noivos. Nunca terão a música certa no momento certo e as melhores imagens selecionadas, para não ficarem com o rabo quadrado quando as quiserem ver. Terão horas seguidas de gravação sem qualquer tratamento e nunca vos apetecerá ver aquilo do início ao fim. São escolhas!

 

Quando pedem a um profissional para gravar um casamento, ele começa logo a fazer contas à vida. Primeiro, contas de tempo: além de um casamento, desde que começa até que acaba, durar sempre para lá de 12 horas, na hora da edição as horas de filme que ficam no cartão vão-se multiplicar muitas vezes. E um dia de trabalho transforma-se em semanas ou até mesmo meses. Quem não faz disso o seu trabalho principal tem que usar o tempo livre que tem entre descansar, ter um mínimo de vida social e a edição.

 

Mas não são só contas de tempo que o videógrafo tem que fazer. Ter este trabalho implica um investimento de milhares de euros (sim, não estou a exagerar) em material. Para o trabalho ficar bem feito, é necessário ter uma boa câmara, boas lentes (para quem filma com DSLR, vulgo “máquinas fotográficas que filmam”), um tripé ou monopé minimamente estável, microfone, vários cartões, pelo menos duas baterias. Para ficar mesmo decente, são necessárias duas câmaras e duas pessoas, o que implica este investimento a dobrar.

 

É também de lembrar que este é um trabalho criativo nada semelhante a um de uma empregada de limpeza (sem qualquer desprimor para este trabalho digno). É como aquela velha história do Picasso, que, quando questionado por cobrar uma quantia exorbitante por um quadro que fez em cinco minutos, respondeu “eu demorei 50 anos a fazer este quadro”. Um profissional não se limita a passar umas imagens para um DVD porque quer fazer o melhor possível, e o melhor possível não se faz da noite para o dia. Requer muitas horas a ver e rever cada plano, a estudar como se conjugam melhor, a sentir o ritmo do vídeo, a cortar quando está longo, a deixá-lo “respirar” quando tem demasiada informação. Demora horas, às vezes dias, até encontrarmos a música que encaixa naquela sequência, e a fazer ginástica para que dure exatamente o tempo que queremos que dure.

 

Por isso, espantem-se: um “videozinho simples” normalmente demora muito mais do que um vídeo complexo. Um vídeo simples vê-se facilmente, não cansa, é agradável. E quanto mais simples, mais trabalho dá.

 

Não escrevo este testamenho para pedir trabalho a ninguém, pelo contrário. Se me puderem poupar disso, eu agradeço e encaminho-vos para quem se dedique inteiramente a estes projetos. Escrevo por já estar farta de ver estes profissionais desvalorizados, às vezes calcados, sem que ninguém perceba que não estão a pedir para ter uma piscina de notas em casa. Só querem comer, ter um teto e ver o seu trabalho minimamente valorizado num país que lhes oferece zero oportunidades.

 

Para quem é freelancer e vive destes projetos, dói na alma ouvir constantemente “isso é muito caro”, “não há orçamento”, “façam lá o jeitinho”. Se não há orçamento, um conselho: há sempre a máquina digital do tio, que tem muito boa imagem e já é uma boa recordação.

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37 comentários

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De Nuno Picado a 27.07.2014 às 22:02

Inês, muito bom!
É algo com que nos deparamos diariamente quando estamos nesta área (ou outras semelhantes).

Então não gostas daquela "é uma sessão simples, podes meter no teu portefólio". Linda não é? Pelo teu texto, desconfio que já ouviste esta algumas vezes também. A palavra portefólio metida numa conversa começa logo a azedar.

Há tempos uma colega convidou-me para o seu casamento, e pediu-me, já que lá estava, e ela não tinha contratado fotógrafo, se lhe tirava umas fotos.
Eh pá, tá bem. Quer dizer, ia ter de dar prenda mesmo, pronto, ofereço-lhe o serviço, a edição do álbum e um álbum em offset. Se quisesse um melhor, pagava apenas, a diferença.

No dia a seguir ao casamento ligou-me, que precisava das fotos com urgência, porque tinha combinado com um outro fotógrafo amigo que ele lhe imprimia as fotos!

O quê???????

Ai eu tenho o trabalho e o outro é que vende fotos?

JPG's de média resolução, gravados num CD. Toma lá, é o que há!
Temos pena, para a próxima não te armas em esperta, que também não vou passar por anjinho!


Mas deixa lá, é a nossa sina!

Até lá, vamos ganhando rios de dinheiro, ou talvez nem tanto!
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De Inês Rocha a 28.07.2014 às 00:47

Pois, essa dos portefólios também é clássica. O que vale é que, entre estes "trabalhos", nos vamos banhando nos nossos rios de dinheiro! :) Obrigada por comentares!
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De Paulo Figueiredo a 28.07.2014 às 18:01

Excelente análise.

Sou profissional da área e partilho da mesma opnião.

Parabéns pelo artigo
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De Félix Iglesias Llano a 28.07.2014 às 19:16

Gostei de ler o seu "desabafo" e no essencial estou de acordo com aquilo que diz. Sou por certo mais velho do que o meu amigo e já há muito tempo me cansei de me preocupar com essa realidade que jamais vamos poder mudar. Eu costumo dizer ao cliente: Acha caro um trabalho de profissional? Então espere para ver quanto lhe vai custar um, feito por um amador. Siga o seu caminho procurando fazer cada vez melhor e vai ver que o trabalho não lhe vai faltar. E ainda com esta vantagem: vai sentir-se cada vez mais realizado. Deixe os pobres para os pobres, afinal eles também precisam viver. Tenho pena dos que, por falta de valor profissional, se tornam o lixo (Linguagem utilizada para as empresas em vias de falência),
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De Ricardo a 29.07.2014 às 08:52

Muito bom! Penso que muitos partilhamos a mesma opinião.
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De Nuno Ferreira a 29.07.2014 às 13:38

Concordo com o que aqui é dito. É um "desabafo" que certamente é compreendido por milhares de profissionais da área.
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De Sandra Couto a 29.07.2014 às 15:29

Cara Inês Rocha,
Não creio que nos tenhamos cruzado alguma vez na vida (ainda!), mas tenho que deixar o meu 'muito obrigada!' por um texto explícito, coerente e que materializa as nossas frustrações com alguns (felizmente não todos!) contactos que recebemos.
Somos fotógrafos, mas o texto aplica-se na íntegra!
Continuação de bom trabalho!
Sandra Couto
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De Bruno Baessa a 29.07.2014 às 15:47

"Eh pah!" eu escrevia este texto por metade do preço...

Parabéns, excelente manifesto que resume bem a realidade.

Cumprimentos
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De Nuno a 29.07.2014 às 16:44

Excelente artigo. Na área do design é exactamente igual. Aliás penso que em qualquer trabalho de freelancer, os "clientes" tendem a abusar. Mas pelo que já percebi, isto tem o hábito de acontecer em Portugal. Somos um país de chorões, queremos sempre da maneira mais fácil e barata possível. Somos muito pequeninos ainda em termos de mentalidades. Somos uma país de contraste, de um lado os pedintes e do outro as pessoas que realmente sabem trabalhar. Por norma os pedintes têm por maneira de ser, deitar as outras pessoas a baixo. Desvaloriza-las. Este país está transformado em merda. (Peço desculpa a linguagem, mas estou farto de formalismos fingidos) Muito por causa das pessoas que habitam aqui. Um país e uma mentalidade como a nossa só irá mudar daqui a muitos anos. Quando tivermos de voltar a fazer tudo de novo. Enquanto nos andarem a dar dinheiro para taparmos buracos que nós próprios abrimos nunca vamos mudar. Mais uma vez, excelente artigo. Fico feliz por não achas que sou apenas eu que tenho isto no pensamento.
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De . a 29.07.2014 às 18:02

Um especialista em informática, foi chamado para consertar um computador muito grande e extremamente complexo, que valia em torno de 12 milhões de reais.
Sentado na frente do monitor, o especialista mexeu numas teclas, balançou a cabeça, murmurou algo para ele mesmo, pegou uma pequena chave de fenda do bolso e apertou um minúsculo parafuso.
Então, ligou o computador e comprovou que funcionava perfeitamente.
O presidente da empresa se mostrou surpreso e satisfeito e se ofereceu para pagar o serviço à vista.
- Quanto te devo? – Perguntou.

O especialista respondeu:
- São mil reais pelo serviço.

O presidente, indignado, perguntou:
- Mil reais? Mil reais por alguns minutos de trabalho? Mil reais só para apertar um simples parafuso? Eu sei que meu computador vale 12 milhões de reais, mas mil reais é muito dinheiro. Vou pagar somente se você me mandar uma fatura detalhada que justifique o valor.
O especialista concordou e foi embora.
Na manhã seguinte, o presidente recebeu a fatura. Leu o documento com cuidado, balançou a cabeça e a pagou na hora.
A fatura dizia:
SERVIÇOS PRESTADOS:
Apertar um parafuso .........1 real

Saber qual parafuso apertar..........999 reais

LIÇÃO DE VIDA:

Jamais devemos desvalorizar o trabalho de alguém. E julgar o valor de um serviço, simplesmente pelo tempo que se demora para realizá-lo, é um grande erro.
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De victor a 30.07.2014 às 12:14

é mesmo isso...
toda a gente se torna amiga intima quando precisa de um video grátis.

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