Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


29
Jul14

 

Há dois anos, por esta hora, já estava do outro lado do mundo. Eu e mais seis, e mais tantos que levávamos cá dentro connosco. Já tínhamos descarregado e organizado tudo o que levávamos nas malas - roupa de bebé, de criança, de adolescente, de adulto. Escovas de dentes, pastas de dentes, medicamentos de todo o tipo. Brinquedos. Mimos dos de cá para os de lá.

 

Aterrámos em Luanda com aquele nervoso miudinho de quem está prestes a realizar um sonho. Tínhamos quase um mês para nos desligarmos das nossas rotinas, do nosso conforto, das "merdices" que nos envolvem e nos consomem por cá. Lá, só tínhamos uma tarefa: ser para os outros. Além da tralha que levávamos nas malas - que era finita - queríamos levar-nos a nós, e deixarmo-nos lá, inteiros, com aquelas pessoas.

 

O que guardamos daquela experiência é difícil de explicar num texto rápido de um blogue. Daria um livro, e ainda dará, quando eu tiver disponibilidade e coragem para sentar o rabo e acabar o que comecei.

 

Mas hoje, dois anos depois, apetece-me fazer este exercício de recordar algumas das coisas que aprendi na Missão que vivemos em Luanda, durante aquelas semanas – recordar estas coisas é sempre uma “chapada de luva branca” na alma.

 

 

- É impressionante como o conceito de "necessidade básica" difere conforme a condição económica de cada um. Quando penetramos numa realidade de pobreza extrema e damos de caras com a felicidade estampada no rosto daqueles que não têm nada, damo-nos conta do valor de viver desapossado das “coisas” que tanto nos enchem as prateleiras, as carteiras e as agendas.

 

- Perdemos demasiado tempo em queixumes. Concentramo-nos facilmente na nossa condição de "coitadinhos", e esquecemo-nos de dar espaço à gratidão. A maioria das vezes, temos muito mais a agradecer do que a lamentar.

 

- Vivemos tão rodeados por um manancial de informação que nos tornamos desinteressados. Já pouca coisa nos faz parar para pensar. Temos poucas dúvidas. Quando as temos, resolvemos o assunto em dois segundos, com uma visita à Wikipedia. Contactar com pessoas que têm que lutar a sério para aprender mexe cá dentro. Quando dizemos coisas aparentemente básicas e vemos os seus rostos mudarem, por estarem a aprender uma coisa nova, percebemos a sorte que temos. A sua curiosidade e o genuíno interesse é verdadeiramente inspiradora.

 

- Tornamo-nos menos esquisitos. De repente, o feijão já não parece empapado e o leite em pó não tem uma textura assim tão má. Ter uma refeição quente para comer em comunidade de repente chega. Basta isso.

 

- Vamos para lhes ensinar muitas coisas, e acabamos a aprender dez vezes mais. Perdemos o péssimo hábito da indiferença e aprendemos a arte de ver em cada desconhecido um irmão.

 

Tantas mais coisas aprendemos, tanto mais trouxemos connosco. Vou ceder ao cliché do "há coisas que não cabem em palavras". Não cabem mesmo. Mas deixam saudades. Muitas.

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D



Passaram por cá:

hits counter
hits counter