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“Estes jovens de hoje em dia estão todos perdidos! Quando eu era jovem ia para a rua jogar com uma bola de trapos, era assim que fazia amigos!”

 

Podia muito bem abordar a moda dos “meets” com afirmações como estas, qual velho do Restelo, “meneando três vezes a cabeça, descontente, a voz pesada um pouco alevantando”. Conseguia facilmente encher uma página A4 com generalidades dessas, “se eu fizesse isso quando tinha 16 anos o meu pai dava-me duas lambadas que me virava, e não virei um traumatizado. Estes jovens de hoje em dia são umas florzinhas de cheiro”. Mas essa era a forma fácil de abordar a questão, pôr-me no meu pedestal a olhar para os energúmenos desta atual geração, que estão perdidos, e sem futuro, mais valia metê-los a todos numa máquina do tempo para aprenderem o que é a vida.

 

Se eu fizer o exercício de descer o tal pedestal indestrutível em que todos temos a mania de nos colocar, até consigo perceber a moda dos “meets”. Estamos nas férias do Verão. Três meses sem nada para fazer é muita coisa (já agora, se alguém me quiser ceder uns quinze dias do seu vasto tempo livre, eu aceito). Eu lembro-me que costumava ocupar esses dias a combinar “meets” com os meus amigos da escola, da catequese, do coro (sim, sou uma menina do coro que andou na catequese, não me chateiem). “Meets” na praia, na piscina, no cinema, no café. A diferença é que na altura o computador existia no máximo para estar no “Messenger” à conversa com essas mesmas pessoas (escondidas em nomes como “mor4nguit4h fof1t4h” e “Crazy Net Boy”), e era bem mais interessante quando nos juntávamos ao vivo e criávamos memórias todos juntos.

 

Hoje em dia, os adolescentes têm muitos mais fatores de distração. É o Facebook e as trinta mil fotografias ao espelho dos seus 3 mil amigos. É o Youtube, todo o lixo e todas as coisas interessantes que lá se podem descobrir. É o Instagram, o Tumblr, o Twitter, os sites piratas com todos os filmes e séries algumas vez feitos. É o Spotify, o Pinterest, o Snapchat, o WhatsApp.

 

De repente, os miúdos passaram a poder estar em contacto com o mundo estando o dia todo de pijama em frente ao computador (que, by the way, é o que eu estou a fazer neste preciso momento). E conseguem realmente divertir-se assim, sem ficar entediados duas horas depois. Têm uma vida paralela nas redes sociais. São ambientes controlados onde podem mostrar-se exatamente da maneira que querem ser vistos. Para pessoas inseguras ou tímidas, é a forma mais fácil de fazer amigos. “Amigar” uma pessoa desconhecida e abrir uma janela de um chat é bem mais fácil do que nos aproximarmos daquele rapaz jeitoso que está a jogar futebol na praia.

 

Mas a certa altura, todos somos humanos, e percebemos que precisamos de algo mais do que amizades meramente virtuais. Precisamos do contacto visual, do toque, de outras coisas mais. E neste contexto parece-me que os #meets fazem todo o sentido. São encontros de toda a malta que passa o dia de pijama em frente ao computador a “botar like” em todas as fotografias que lhes aparecem à frente. Onde podem realmente ver ao vivo aquele rapaz com quem conversam quase diariamente, olhando-o finalmente nos olhos. Onde podem realmente rir uns com os outros, risos reais, sem terem que escrever “lol” a cada dois segundos. Estes “meets” juntam pessoas que já se conhecem, de uma forma às vezes bastante profunda, mas que nunca passaram pela fase da timidez inicial, das primeiras palavras trocadas, das primeiras reações.

 

O problema, no meio disto tudo, é que as redes sociais não juntam dez pessoas que acabam por formar uma amizade sólida. As redes sociais são um autêntico mundo, novas realidades que juntam milhares de pessoas. O resultado é este que anda a abrir telejornais. Centenas de jovens marcam um encontro, dez dos quais fazem parte de “gangs” e gostam de espetar chaves de fendas e garrafas nas costas das pessoas. Resultado: os “meets” dos jovens de pijama com necessidade de fazer amigos são transformados em práticas criminais, põem a polícia em alerta máximo, interrompem concertos onde as pitas histéricas se querem divertir (chamo-lhes pitas histéricas porque tive que levar com elas – as piores, as da primeira fila -durante mais de uma hora a gritar-me aos ouvidos). E fazem jornalistas terem que sair do trabalho às seis da manhã. Esta é realmente a consequência mais grave de tudo isto.

 

Fenómenos destes dão que pensar. A dimensão das redes sociais é inquestionável. Basta pensar nos banhos públicos, que continuam a percorrer o planeta a uma velocidade incrível. Somos todos solidários para fazer um vídeo a despejar um balde de água gelada pela cabeça abaixo, mas provavelmente passamos todos os dias por pessoas que precisam da nossa ajuda e viramos-lhes a cara, totalmente indiferentes ao seu sofrimento. Somos realmente solidários? Ou precisamos de mostrar isso à rede, esse ambiente controlado onde podemos ser quem quisermos?

 

O problema está nos “meets”, ou está na nossa forma de estar perante as redes sociais? Está nos adolescentes ou nos exemplos que veem nos adultos à sua volta? Porque é que os pais, em vez de dar um smartphone topo de gama a crianças que ainda não sabem conviver na vida real, não lhes dão a oportunidade de estar com pessoas reais, utilizando os seus tempos livres para praticar um desporto, aprender a dançar, a falar inglês ou a tocar um instrumento?

 

Agora que as redes sociais estão cá, e aparentemente vieram para ficar, talvez seja melhor descermos dos nossos pedestais, e começarmos a educar as nossas crianças. E a melhor forma de educar não é proibir os adolescentes de ir ao Vasco da Gama ou ao concerto do Anselmo Ralph. Isso não cria adultos, cria revoltados. Educar é dar o exemplo, alertar. E sobretudo dar alternativas.

 

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Esta coisa dos banhos públicos que invadiu o Facebook há já umas semanas faz-me lembrar aqueles e-mails que eu recebia quando tinha 12 anos, que tinham sempre anexados uns Power Points pirosos, cheios de anjinhos e flautas-de-pan a acompanhar, a resumir uma filosofia de vida qualquer vinda da China ou da Tailândia ou da Lapónia. Eram os vídeos do Gustavo Santos, versão 1.0.

 

Estes e-mails acabavam sempre, invariavelmente, com uma frase do género “manda este e-mail a 15 pessoas, senão vais ter trinta anos de azar, um camião TIR vai-te passar por cima e nunca mais ninguém vai gostar de ti”.

 

Eu reencaminhava para os meus contactos, “pelo sim, pelo não”. Depois, aos poucos comecei a perceber que os camionistas tinham mais que fazer do que atropelar pessoas só por elas ignorarem um e-mail, e passei a ser muito mais feliz.

 

Os banhos públicos tinham tudo para ser engraçados, se não se tivessem tornado uma dessas correntes irritantes que todos parecem ter medo de quebrar. E de repente o meu feed encheu-se de gente a molhar-se com mangueiras e a borrifar-se com água no meio da rua. Ainda por cima, a maioria é daqueles que, se virmos no computador, ficamos com o torcicolo no pescoço, porque ninguém se digna a filmar com o telemóvel na horizontal.

 

Há alguns engraçados – não digo que não. Já me ri genuinamente com dois ou três. Nos restantes, ri-me por outras razões. Se é que me entendem.

 

Entretanto, o pessoal famoso deste mundo decidiu envergonhar as “babes” e os “manos” portugueses, voltando ao cariz solidário que originalmente estes desafios tinham. O “Ice Bucket Challenge”, que anda a correr o Facebook e as revistas cor-de-rosa do mundo todo, tem agora o objetivo de ajudar a associação ALS a angariar fundos para pacientes e investigadores da doença esclerose lateral amiotrófica.

 

Já aderiram ao movimento Mark Zuckerberg, Bill Gates, Cristiano Ronaldo, Justin Timberlake, Jennifer Lopez, entre muitos outros.

 

Conclusão: a “moda” já chegou à malta da massa, que se anda a divertir a tomar banhos gelados e a contribuir para uma boa causa. A ALS agradece e nós também, que temos oportunidade de ver o Cristiano Ronaldo de cuecas e a versão "miss camisa molhada" do Bill Gates.

 

É neste momento que os tugas percebem que já chega de mangueiradas no jardim para evitar pagar jantares a amigos. Se gostam assim tanto de correntes, adiram antes a esta, que é mais útil para a sociedade. Fica a sugestão.

 

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14
Ago14

A arte de ter tempo

por Inês Rocha

 

 

Com este, são já catorze dias de pausa na rotina. Sem horários, sem compromissos de maior, a aproveitar o tempo.

 

Nestes catorze dias, andei longe destas lides das palavras. Viajei com os amigos até ao fim do mundo, onde as paisagens ainda são naturais e a carne ainda sabe a carne, onde a música e a dança saem dos corpos tão naturalmente como a respiração. Percorri o país inteiro com a família e a amiga que também já é família. Cá atrás, um cão velhinho e surpreendentemente paciente, a sua respiração nos nossos pescoços durante largas horas.

 

Acordei a ver o mar, tomei pequenos-almoços na varanda, sentada à mesa e a conversar, sem pressões de ter um metro para apanhar e um horário para cumprir. Juntei-me ao povo instalado num pequeno retângulo de areia em frente ao mar. Levei banhos de areia sempre que os miúdos decidiram passar a correr pela toalha onde estava estendida. Mergulhei no mar desta vez gelado do Algarve, senti o sol a evaporar a água salgada da pele em menos de um minuto e a queimá-la sem hesitações.

 

Fiz dos finos e dos tremoços de fim da tarde uma religião. Da companhia e das conversas um prazer. Comecei a ver boas séries, a ler um daqueles livros que nos absorvem até cravar os cotovelos na areia e fazer ferida.

 

Agora que começo a contar os dias para voltar à rotina e ao trabalho, para deixar este pequeno paraíso sem obrigações a cumprir, lembro-me de uma conversa que tive um dia com a minha avó, algures na minha adolescência ocupada.

 

- Nem imaginas a quantidade de coisas que tenho para fazer. Às vezes gostava que os dias tivessem 48 horas.

 

A minha avó sorriu, com aquele ar de quem vai dizer mais uma coisa sábia.

 

- Sabes, eu acho que se os dias tivessem 48 horas nós arranjávamos coisas para os preencher e continuávamos sem tempo.

 

Nas férias, comprovo sempre esta afirmação da minha avó. O tempo é contínuo, uma sucessão de horas infinitas que não param nunca. Saber aproveitá-lo é uma arte – se houvesse um curso a ensiná-la, já estava na fila para me inscrever. Teimamos em condensar em meia dúzia de dias no ano os pequenos prazeres que nos dão paz de espírito. Mas temos 24 horas em cada dia para usar a nosso gosto. Normalmente, não os sabemos aproveitar.

 

Não há nada melhor do que estes dias em que nada mais importa para nos treinarmos nesta arte de aproveitar o tempo.

 

Por falar nisso, vou desligar esta tralha e mergulhar de novo no meu livro, talvez no sofá que está na varanda e tem vista para o mar e para a lua, ou noutro lado qualquer. Onde bem me apetecer.

 

 

PS: Na fotografia, a praia da Cova Redonda, considerada pela European Best Destinations uma das 15 praias mais bonitas da Europa. Isto era eu a testar as capacidades fotográficas do meu novo brinquedo. Mas asseguro que ao vivo é bem mais linda.

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01
Ago14

Já não sou info-excluída

por Inês Rocha

 

Já ando a instagramar. Eu disse que não ia postar gatos fofos, cães não contam, ok?

 

Já não sou uma info-excluída. Ontem comprei um iPhone.

 

Vocês: “Eehh pá, um iPhone? Essa coisa do jornalismo dá dinheiro!”

 

Eu: “Eh pá, calem-se”.

 

Comprei um iPhone mas, como uma verdadeira tuga pobre, andei dois meses a estudar maneiras de poupar uns cêntimos no preço final. Vi os preços de todos os últimos modelos numa carrada de lojas, vi tarifários em todas as operadoras do mercado, descobri o plano especial para jornalistas da Vodafone, estudei todas as combinações possíveis de diferentes equipamentos com diferentes tarifários, irritei-me com as informações pouco explícitas do site, ponderei mandar vir o telemóvel do Canadá, descobri que o 4G de lá é diferente. Explorei o Olx, os usados e os novos mas sem garantia, as lojas online duvidosas todas. No fim, vencida pelo cansaço e não encontrando a solução que procurava, acabei por aderir à campanha de jornalistas da Vodafone e preparava-me para pagar uma autêntica prestação (em forma de tarifário) durante dois anos.

 

Ontem, ao almoço, explicava que o telemóvel devia estar a chegar por correio e o meu pai diz-me, tranquilamente: “mas podias aderir ao MEO, eu tenho um voucher para gastar de 150 euros em equipamento e ficas com um tarifário de €7,5 com net e chamadas ilimitadas”.

 

Eu bebi um gole de água e fiquei a pensar como contrapor aquela informação (afinal sou doutorada em tarifários). Não havia como contrapor. Era bom demais para ser verdade.

 

Vai daí, estraguei os planos de dois meses numa tarde e cancelei a compra na Vodafone. Foi tudo surpreendentemente rápido e não me obrigaram a mandar carta registada para 40 sítios diferentes nem preencher 50 formulários, o que foi estranho. Já agora, aceito apostas: quantas vezes, nos próximos meses, me vão ligar a horas inconvenientes a chorar por os ter abandonado de repente?

 

Bom, depois de duas horas numa loja MEO e de o meu santo pai se sujeitar a mais dois anos amarrado àquele operador (ninguém dá vouchers a troco de nada), lá me deram o brinquedo.

 

Agora pareço uma criança, a instalar este mundo e o outro no telefone e a experimentar todas as aplicações que ouvi dizer que são úteis. A sensação é mais ou menos como a do dia em que voltei de Angola, abri o Google no meu computador e aquilo demorou menos de um segundo a abrir. Pareço um burro a olhar para um palácio.

 

Mas nem tudo é bom. Se antes eu era a pessoa mais anti-social e incomunicável de sempre, agora vai tornar-se mais difícil viver na minha bolha. Se não responder a uma SMS, por falta de dinheiro, de não ver o telemóvel, de estar ocupada, etc., a pessoa pode optar por deixar mensagens no Facebook, no e-mail, no Viber, no WhatsApp e em mais não sei quantas aplicações que ainda posso vir a ter. Além de que o bicho sabe sempre onde eu estou, e aparentemente diz às pessoas, para o caso de haver stalkers interessados em encontrar-me.

 

Mas isto até é giro. É tudo super interativo, posso partilhar com o mundo o quanto a “minha” cadela emprestada é fofa, fazer inveja ao pessoal com os cozinhados da minha mãe, partilhar lugares, ideias em tempo real. E as fotos não ficam todas tremidas e pixelizadas, parecem realmente de uma máquina decente. Posso querer pesquisar uma coisa qualquer e de facto consigo cumprir a tarefa rapidamente, não demoro dez minutos a abrir um site.

 

Sim, já sei que pareço a minha avó a falar. Aliás, ela é capaz de dominar melhor estas coisas do que eu.

 

Já agora, meus amigos, preparem-se: daqui a uns dias, quando alguém me ligar, vai ter que levar com aquela senhora que fala com voz de altifalante de supermercado, mas em vez de pedir para se aproximarem da caixa central, diz: “Aviso… ligou para um assinante que agora pertence ao MEO. Por favor aguarde”. Peço desculpa aos mais impacientes!

 

Agora também aceito apostas: durante quanto tempo vou tratar este brinquedo como uma flor de estufa? Pousá-lo devagarinho, ter cuidado para não roçar as chaves de casa do ecrã, andar com película protetora, andar sempre à caça de aplicações giras, isso tudo. No meu telemóvel anterior, mal saí da loja deixei-o cair num chão de cimento e ficou cheio de marcas. Só para adequarem as vossas apostas ao ser destrambelhado que eu sou.

 

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